Coelho está com fezes moles: o que pode ser?

Você chega em casa com aquela sacola de compras, puxa um pedaço generoso de cenoura ou uma folha bonita de alface e decide fazer a alegria do coelho. No dia seguinte, na hora de limpar o cercado, você nota um cheiro forte e se depara com uma sujeira pastosa e escura grudada no pelo do animal ou espalhada pelo chão. O susto é imediato.
Afinal, o que está acontecendo?
Fezes moles em coelhos decorrem principalmente do desequilíbrio da microbiota cecal por dieta pobre em fibras e rica em carboidratos ou mudanças bruscas de manejo. Para entender o problema com calma, a primeira coisa a fazer é separar dois cenários completamente diferentes. Uma coisa é a eliminação de cecótrofos amolecidos que o animal simplesmente não quis comer. Outra, bem mais grave, é a diarreia líquida verdadeira, que se comporta como uma emergência médica fulminante.
Cecótrofos moles ou diarreia verdadeira?
Para o tutor de primeira viagem, qualquer cocô fora do padrão causa calafrios. Só que a biologia dos coelhos é cheia de particularidades. Eles produzem duas sortes de fezes. As bolinhas secas e duras que a gente conhece bem são o resultado final do processo digestivo. Mas eles também produzem os chamados cecótrofos. São bolinhas mais macias, brilhantes, cobertas por uma camada de muco e riquíssimas em nutrientes, que o coelho costuma reingerir diretamente do ânus para aproveitar vitaminas essenciais.
Quando você encontra fezes pastosas e fedidas pela gaiola, muitas vezes o animal não está com diarreia. Ele apenas produziu cecótrofos amolecidos porque o cardápio passou do ponto.
Isso acontece com frequência quando a dieta ganha excesso de açúcares, frutas, petiscos industriais ou vegetais inadequados. O ceco, que funciona como uma câmara de fermentação delicada, desequilibra. O coelho come aquilo, percebe que a consistência não está certa e acaba recusando a iguaria.
Por outro lado, a diarreia verdadeira transforma tudo em uma pasta amorfa, aquosa e fétida. Aqui o buraco é mais embaixo. Trata-se de um colapso total da flora benéfica que habita o intestino do animal, permitindo a proliferação descontrolada de bactérias nocivas ou parasitas. Filhotes recém-desmamados que apresentam diarreia líquida exigem atendimento veterinário urgente, pois a desidratação avança em poucas horas.
O motor da digestão e a armadilha da ração
O sistema digestivo do coelho funciona como uma linha de montagem em movimento constante. Para essa engrenagem rodar sem travar, a fibra insolúvel é o combustível principal. E essa fibra vem de um único lugar que não deveria faltar nunca: o feno de gramíneas.
O feno deve compor a base de tudo o que o coelho come no dia. Ele precisa estar disponível à vontade, fresco e limpo. A ração extrusada, por mais que o fabricante coloque fotos simpáticas na embalagem, funciona apenas como um suplemento medido. Em geral, uma quantidade menor por quilo de peso do animal costuma ser o suficiente para manter o equilíbrio.
Quando o tutor exagera na ração ou entope o coelho de frutas e cenouras, o excesso de amido e carboidratos chega ao ceco alterando o pH natural. As bactérias boas morrem à míngua, enquanto as oportunistas fazem a festa. O resultado visível dessa festa desregulada aparece na bandeja sanitária em forma de fezes moles.
O perigo invisível dos remédios errados
Existe um tropeço que costuma sair bem caro e quase sempre nasce da melhor das intenções. Dar qualquer medicação sem orientação especializada para coelhos pode virar uma sentença de morte.
Antibióticos comuns em cães e gatos, principalmente aqueles da família das penicilinas, destroem a saúde dos lagomorfos. Eles liquidam com as bactérias protetoras do ceco, abrindo espaço para um crescimento explosivo de micro-organismos que liberam venenos letais. O animal entra em choque e morre em menos de quarenta e oito horas.
O raciocínio vale igualzinho para remédios de carrapato e pulga com fórmulas inadequadas. Jogar esse tipo de veneno na nuca do coelho desencadeia convulsões que podem ser irreversíveis. Se o seu bicho estiver tomando algum remédio e as fezes amolecerem de repente, pare qualquer interferência caseira e corra para o veterinário de exóticos.
O que fazer na prática e o que jamais tentar
Ao dar de cara com o pelo sujo e fezes pastosas, o impulso automático de quase todo mundo é ligar o chuveiro para um banho geral. Segure esse ímpeto.
Enfiar um coelho debaixo da água gera um pânico descomunal. O perigo de choque térmico, hipotermia e até de um ataque cardíaco fulminante por causa do barulho do secador é real. A limpeza precisa ser cirúrgica e restrita ao local sujo. Use um pano úmido apenas para tirar o grosso da região traseira e seque tudo com paciência usando uma toalha macia.
Na hora de mexer na comida, volte para a raiz do problema. Corte na mesma hora os petiscos, as frutas e as verduras cheias de água. Deixe o feno de gramíneas à disposição, bem fresco e em grande quantidade. Troque a água com frequência e experimente colocar um pote pesado no chão, já que muitos preferem beber assim do que no bico da garrafinha.
Se o coelho continuar ativo, beliscando o feno e circulando pela casa, reajustar a rotina costuma dar conta do recado em pouco tempo. Só que é preciso abrir o olho para os sinais de alerta. Caso ele pare de comer por algumas horas, fique quietinho no canto com a barriga dura, ranja os dentes de dor ou produza fezes aquosas e com sangue, a situação mudou de patamar. Leve o animal para uma consulta especializada imediatamente, porque a saúde de um coelho desmorona num piscar de olhos.
